Inovação suíça reforça sinergias com a Alemanha e aponta oportunidades para o Sul do Brasil
Com o crescimento do impacto das fontes renováveis na matriz energética mundial, surge o desafio estratégico do armazenamento de energia de maneira eficaz, econômica e ambientalmente segura. A produção de energia solar e eólica tem ganhado cada vez mais espaço como alternativa às fontes convencionais, ampliando a necessidade de tecnologias capazes de equilibrar oferta e demanda ao longo do dia e das estações do ano.
Uma inovação de origem suíça vem se consolidando como resposta a esse desafio: o armazenamento de energia por gravidade, realizado por torres automatizadas que movimentam blocos de concreto de alta densidade. Criada em 2017 pela empresa Energy Vault, a tecnologia tem ganhado destaque global no atual contexto de escassez e encarecimento de minerais críticos usados em baterias convencionais, como lítio e cobalto.
Já em fase comercial em países como China, Itália e Estados Unidos, a solução vem sendo expandida também em modelos híbridos, combinando armazenamento por gravidade com baterias de íon-lítio e até sistemas de controle térmico. Já projetos como o Miniera d’Energia, na Sardenha, Itália, aproveitam antigas minas de carvão para a instalação de estruturas subterrâneas que reduzem custos e impactos ambientais, visto que a tecnologia necessita de grandes fundações para estabilidade. Isso evidencia a capacidade de integração dessa tecnologia com outros métodos de transição energética e reconversão industrial.
Apresentando-se como uma solução física, modular e de longa vida útil, a tecnologia tem como base princípios clássicos da física, ou seja, converte-se o excesso de energia elétrica gerado, por exemplo, em horários de pico solar, em energia potencial gravitacional. Motores elétricos utilizam essa energia para erguer blocos de concreto com peso entre 30 e 35 toneladas a uma determinada altura. Quando a demanda aumenta, os blocos são descidos lentamente, acionando geradores que devolvem eletricidade à rede.
Com eficiência operacional estimada em cerca de 90%, vida útil superior a 30 anos e baixíssima degradação, o sistema tem se mostrado especialmente atrativo para aplicações de médio e longo prazo. A ausência de elementos químicos complexos e a possibilidade de uso de resíduos de construção civil como matéria-prima para os blocos adicionam uma camada extra de sustentabilidade e economia circular ao modelo.
A Alemanha, uma das maiores referências mundiais em transição energética, tem se mantido atenta às soluções de armazenamento de longa duração. O país superou 22 GWh em capacidade instalada de baterias estacionárias em 2025 e continua investindo em políticas de diversificação tecnológica, incluindo formas alternativas como hidrogênio, ar comprimido e, mais recentemente, armazenamento gravitacional.
Ainda que o modelo de torres de concreto da Energy Vault não esteja amplamente instalado na Alemanha, iniciativas de pesquisa e desenvolvimento estão em andamento, com foco no reaproveitamento de minas desativadas e na modelagem regulatória necessária para viabilizar essas soluções. Há também debates em curso sobre remuneração por serviços de rede, mecanismos de mercado de capacidade e integração de fontes diversas na malha elétrica europeia.
Estudos recentes indicam que o mercado global de armazenamento por gravidade pode atingir crescimento anual superior a 25% até 2030, movimentando bilhões de dólares em investimentos. A Europa está entre os principais polos de interesse, especialmente em regiões com histórico de mineração, infraestrutura pesada e altos custos de energia.
E esse cenário tem profunda sinergia com o do sul do Brasil, especialmente nos estados do Paraná e de Santa Catarina. Ambos os estados contam com matriz energética limpa e diversificada, redes elétricas conectadas a fontes renováveis e cadeias produtivas industriais com forte presença nos setores de engenharia pesada, automação, construção civil e tecnologias ambientais.
Essas características tornam a região ideal para a implementação de projetos-piloto de armazenamento por gravidade, com potencial de reaproveitamento de materiais, geração de empregos qualificados e fortalecimento de uma cadeia nacional de fornecedores para componentes estruturais e sistemas de controle.
O histórico positivo de cooperação Brasil-Alemanha em temas de energia e inovação tecnológica também representa uma vantagem estratégica. Programas como o International Climate Initiative (IKI) e instituições financeiras alemãs, como o banco KfW, já atuam no Brasil com linhas de financiamento voltadas à descarbonização e à modernização do setor elétrico.
Apesar do grande potencial, a adoção da tecnologia ainda exige avanços em algumas frentes. O alto custo de capital inicial é um fator limitante, o que reforça a importância de instrumentos de financiamento internacionais, garantias públicas e marcos regulatórios estáveis. Também é essencial que a regulação brasileira avance no reconhecimento e remuneração de serviços prestados por sistemas de armazenamento, como regulação de frequência, reserva de energia e redução de picos de demanda.
Do ponto de vista técnico, é necessário realizar estudos de viabilidade geotécnica, estrutural e econômica para identificar os locais ideais de instalação e adaptar o design das torres ao solo brasileiro. A formação de equipes técnicas especializadas para instalação e operação também será fundamental.
A convergência entre inovação tecnológica, maturidade industrial, infraestrutura elétrica e cooperação internacional posiciona o sul do Brasil como um ambiente propício para liderar o uso de tecnologias como o armazenamento gravitacional. Trata-se de uma solução que, além de disruptiva, oferece vantagens concretas em termos ambientais, econômicos e estratégicos.
Em um mundo que avança cada vez mais para a eletrificação e digitalização, armazenar energia de forma limpa, durável e acessível será um dos grandes diferenciais de competitividade. O momento é agora — e as pontes entre Brasil e Alemanha continuam abertas para quem deseja inovar com impacto real.
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* Esse texto foi escrito por Silvana Piñeiro, jornalista, associada por meio da empresa Smartcom Inteligência em Comunicação e correspondente da AHK Paraná na Alemanha. A profissional é pós-graduada em Marketing, mestre em Estudos Políticos pela Sorbonne (França) e especialista em Comunicação ESG pela Deutsche Akademie für Public Relations (DAPR). É coautora de livros distribuídos na Europa e Estados Unidos sobre empreendedorismo internacional e comunicação jurídica com artigos sobre comunicação e os efeitos fake news.