Proteína animal de baixo carbono abre novo mercado para o Paraná e Santa Catarina

Biogás, energia solar, biomassa e hidrogênio renovável transformam a força agroindustrial do Sul em vantagem competitiva

A transição energética começa a ganhar contornos próprios no Sul do Brasil e passa a olhar com mais anseio mercados internacionais que exigem rastreabilidade, redução de emissões e sustentabilidade. O Paraná e Santa Catarina despontam como regiões de destaque na produção de proteína animal de baixo carbono. Isso graças ao diferencial competitivo do agronegócio local, que, além de impactar o volume produzido,já engloba a capacidade de entregar carne proveniente de cadeias progressivamente descarbonizadas, alinhadas às exigências de compradores europeus e asiáticos.

O movimento se apoia em uma combinação de fatores que já fazem parte da realidade dos dois estados. O Paraná é líder nacional na produção de carne de frango e ocupa posição de destaque na suinocultura. Já Santa Catarina é o maior exportador de carne suína do país e possui cooperativas que figuram entre as maiores da América Latina. Ambos contam com cadeias de grãos consolidadas, indústrias de processamento robustas e grande disponibilidade de resíduos orgânicos, elementos que permitem integrar energia renovável, tratamento ambiental e produção de alimentos em um único sistema.

Agroindústria cria vantagem para Paraná e Santa Catarina

A lógica é simples e poderosa. Resíduos da produção animal são transformados em biogás, que, por sua vez, gera energia renovável para a fabricação de fertilizantes, cultivo de grãos com menor intensidade de emissões,  produção de ração e, finalmente, criação de animais com pegada de carbono reduzida. É uma cadeia circular que conecta sustentabilidade, eficiência e competitividade e que pode reposicionar a agroindústria do Sul em mercados que valorizam produtos de baixo impacto ambiental.

Daniel Farion, diretor-presidente e responsável técnico do Grupo Instalo, explica que essa integração pode elevar a agroindústria paranaense e catarinense a um novo patamar. “A ideia é realizar, dentro de uma única fazenda, desde a produção do fertilizante nitrogenado descarbonizado, insumo essencial para o grão verde, até o processamento desse grão em ração e a criação do animal de baixo carbono. Assim, teremos um produto com potencial para atender mercados que valorizam rastreabilidade, redução de emissões e sustentabilidade porque produziremos proteína animal verde, descarbonizada, capaz de acessar um verdadeiro oceano azul”, explica.

Energia renovável complementa a oferta

O Brasil já possui projetos estruturantes que reforçam essa direção. O GEF Biogás Brasil, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com a ONUDI, tem impulsionado o uso sustentável do biogás e biometano, transformando resíduos orgânicos em energia limpa e biofertilizantes. Já o PROBIOGÁS, fruto da cooperação entre o governo brasileiro e a GIZ alemã, tem atuado para ampliar o uso energético do biogás em saneamento, agropecuária e agroindústria, aproximando universidades, empresas e órgãos reguladores.

Um estudo da Universidade Tecnológica Federal do Paraná indica que o Brasil tem potencial para quadruplicar a participação do biogás na matriz energética, podendo gerar mais de 17 mil GWh por ano apenas a partir de resíduos agropecuários. O volume seria suficiente para abastecer uma cidade de três milhões de habitantes. Esse desenvolvimento se mostra como um benefício duplo para produtores rurais, os quais conseguem reduzir o impacto ambiental e criar uma nova fonte de receita. Farion explica que o uso do biogás para a produção de energia já ajuda os agricultores na redução dos impactos dos dejetos e pode trazer mais recursos econômicos para a propriedade rural. “Quando bem executado, o biogás representa um grande avanço tecnológico e financeiro, afirma.

Energia solar e biomassa avançam no campo e nas empresas

Tanto a energia solar como a biomassa desempenham papel central nesse processo. No campo, os sistemas fotovoltaicos abastecem refrigeração, irrigação, ordenha e armazenagem. Já nas indústrias, eles reduzem custos e emissões associadas ao consumo de eletricidade. A biomassa substitui combustíveis fósseis na produção de calor e vapor, especialmente nos setores de alimentos, madeira, móveis, papel, celulose e cerâmica. Esses projetos híbridos ampliam a segurança energética, com a energia solar atendendo ao consumo diurno e o biogás sendo armazenado para uso conforme a demanda.

O hidrogênio renovável, por sua vez, surge como a nova fronteira. Além da eletrólise da água, há rotas associadas ao biogás e à biomassa, especialmente relevantes para a produção de fertilizantes nitrogenados de menor pegada de carbono. Na agroindústria, essa aplicação reduz a dependência de insumos fósseis e importados, fortalecendo a autonomia produtiva.

Cooperação Brasil-Alemanha gera oportunidades

Embora o Paraná já possua uma matriz elétrica de baixa emissão e uma base agroindustrial favorável, Farion avalia que o estado precisa acelerar investimentos em pesquisa, desenvolvimento e demonstração de novas tecnologias. “O estado já é um grande líder na geração de energia de baixo carbono, mas pode fazer muito mais. O apoio público pode ajudar a transformar projetos inovadores em soluções comerciais, por meio de mais recursos para pesquisa e desenvolvimento, além de dar suporte aos modelos com novas tecnologias,” avalia. Para o executivo, sem uma integração real entre produtores rurais, cooperativas, indústrias, universidades, fornecedores de tecnologia e instituições financeiras, as soluções tecnicamente viáveis podem não alcançar escala.

Para as empresas associadas à AHK Paraná, o movimento cria possibilidades de parceria com o ecossistema alemão de tecnologia e inovação. Segundo Farion, o próprio Grupo Instalo foi beneficiado por esse intercâmbio. “Nossa empresa é fruto dessa cooperação, resultado de muita integração e de estudos com empresas alemãs. Tivemos um projeto acelerado pela GIZ por meio da AHK e do programa H2Uppp, que aproxima empresas alemãs de parceiros locais para o desenvolvimento de projetos ligados ao hidrogênio renovável. Essa é uma boa oportunidade para realizar projetos em parceria com a GIZ, a AHK e empresas privadas que tenham boas ideias. A oportunidade não está apenas em produzir energia renovável, mas em utilizá-la para criar produtos com maior valor agregado. Para empresas que atuam no Brasil e no exterior, isso pode significar acesso a novos mercados, maior competitividade e melhor posicionamento diante de clientes que exigem metas ambientais e rastreabilidade. Com incentivos, tecnologia e cooperação internacional, a Região Sul caminha para se consolidar não apenas como grande produtora de alimentos, mas como referência em biogás, agroindústria descarbonizada e proteína animal de baixo carbono.


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