A evolução da Indústria 4.0 passa pelo compartilhamento soberano de dados


Projeto alemão ligado ao Manufacturing-X cria um ecossistema aberto de dados industriais e acelera a integração de fornecedores com novas oportunidades para empresas

Após consolidar o conceito de Indústria 4.0 como referência global para fábricas inteligentes, a Alemanha avança agora para uma nova etapa da digitalização industrial com a criação de ecossistemas de dados capazes de conectar empresas, máquinas, produtos e cadeias produtivas inteiras. O chamado Factory-X é o projeto-farol do programa alemão Manufacturing-X, liderado pela Siemens e SAP. O projeto reúne ainda quase 60 parceiros em torno do objetivo de desenvolver um ecossistema digital aberto para fabricantes de equipamentos, integradores, operadores de fábricas e fornecedores industriais.

Mais do que digitalizar processos internos, o Factory-X busca resolver um desafio antigo da indústria, o qual envolve o compartilhamento de dados entre empresas com segurança, padronização e controle. Em outras palavras, permitir que informações sobre produção, qualidade, energia, carbono, rastreabilidade e desempenho circulem entre parceiros sem que as empresas percam soberania sobre seus próprios dados.

Se a primeira grande onda da Indústria 4.0 foi concentrada na automação, sensorização e na conectividade dentro das fábricas, agora a ideia é ampliar esse olhar para além dos muros da empresa. Essa nova fase visa fortalecer a interoperabilidade entre diferentes atores da cadeia produtiva, tendo como proposta a criação dos chamados data spaces, ou espaços de dados, nos quais empresas podem compartilhar e consumir informações com regras claras sobre quem acessa, para qual finalidade, por quanto tempo e sob quais condições.

Essa arquitetura se apoia em tecnologias e padrões já conhecidos da indústria alemã, como gêmeos digitais via Asset Administration Shell, conectores compatíveis com International Data Spaces e Eclipse Dataspace Components, além de princípios do Gaia-X para identidade, confiança e governança.

Na prática, isso significa criar uma linguagem comum para que máquinas, sistemas e empresas conversem entre si com menos customização, menos retrabalho e mais velocidade.

A iniciativa também é uma aposta financeira relevante da Alemanha na digitalização industrial. O programa Manufacturing-X conta com financiamento público federal e, no caso específico do Factory-X, a participação pública é de 47,9% dos investimentos. Isso significa de 71 a 73 milhões de euros em apoio federal, somados à contrapartida industrial dos parceiros envolvidos.

O tamanho do investimento deixa evidente que a Alemanha não trata o tema apenas como tendência tecnológica, mas como infraestrutura estratégica para competitividade, resiliência e sustentabilidade da indústria, setor que tem sofrido com a concorrência internacional.

Essa urgência alemã é clara. Um estudo feito pela Siemens aponta que menos de 20% dos dados de campo gerados por empresas industriais são efetivamente utilizados e que 64% das empresas continuam em estágio inicial de transformação digital, enquanto 85% dos executivos da indústria consideram a digitalização decisiva para o sucesso dos negócios.

Esse contraste resume o problema que o Factory-X quer resolver, tornando segura e colaborativa a indústria, que já gera uma quantidade enorme de dados, mas que ainda usa pouco esse potencial de forma estruturada.

Com data spaces industriais, esses dados podem deixar de ser registros internos isolados e passar a alimentar novos serviços, modelos de negócio, relatórios de sustentabilidade, comprovação de origem e decisões mais rápidas ao longo da cadeia produtiva.

Rastreabilidade, carbono e circularidade

Entre os casos de uso priorizados do Factory-X, alguns têm impacto direto para fornecedores internacionais. O Fraunhofer destaca aplicações como rastreabilidade de produtos e componentes, relatórios ESG em cadeias complexas, descarbonização em múltiplas etapas produtivas, cálculo de pegada de carbono do produto, economia circular, gestão do Passaporte Digital do Produto, controle de capacidade e garantia da qualidade.

Já na rastreabilidade, o objetivo é permitir trilhas digitais completas de peças, componentes e materiais. Isso pode facilitar recalls, comprovação de origem, auditorias e atendimento a exigências regulatórias europeias.

Na circularidade, a proposta é padronizar dados sobre reuso, reciclagem, eficiência energética e emissões. O tema ganha relevância com o avanço de exigências como o Passaporte Digital do Produto e a CSRD, diretiva europeia de relatórios de sustentabilidade corporativa.

Para empresas paranaenses conectadas às cadeias Brasil–Alemanha, o Factory-X não deve ser visto como uma iniciativa distante. Ele antecipa o tipo de padrão que grandes grupos industriais europeus tendem a exigir de seus fornecedores nos próximos anos. O primeiro impacto está na conformidade. As empresas que conseguirem estruturar dados sobre produto, processo, energia, qualidade, origem e carbono terão mais facilidade para responder a auditorias e requisitos de clientes internacionais.

O segundo está na integração, com padrões comuns e conectores interoperáveis. Os fornecedores poderão reduzir a dependência de planilhas, integrações sob medida e processos manuais de onboarding. Outro fator importante é a própria geração de receita. A organização dos dados industriais permite criar serviços como manutenção preditiva, monitoramento remoto, contratos por desempenho, modelos “equipment-as-a-service” e pagamento por uso ou por peça produzida.

A própria Siemens associa o Factory-X à criação de modelos de negócio digitais com maior transparência nas cadeias, gestão de CO₂ e energia, interoperabilidade entre fornecedores e autonomia segura sobre os dados.

Um dos pontos sensíveis do Factory-X ainda é garantir que pequenas e médias empresas consigam participar desse novo ecossistema. A Fraunhofer aponta que o Manufacturing-X trabalha com soluções práticas e escaláveis para facilitar o acesso de PMEs a data spaces industriais. Também há projetos complementares, como o DAVID, voltado à interoperabilidade com Asset Administration Shell e ao desenvolvimento de um adaptador para pequenas e médias empresas, além do DaFoX-OWL, focado no onboarding de PMEs para uso do Factory-X. Com ferramentas de onboarding e padrões abertos, a expectativa é que mais empresas consigam participar das cadeias digitais sem precisar reconstruir toda a sua infraestrutura tecnológica.

Para isso, a preparação começa na escolha de uma família de produtos estratégica e o mapeamento dos principais dados relacionados a ela, como as especificações técnicas, qualidade, lote, origem de materiais, consumo energético e emissões.

Depois, a empresa pode avançar na estruturação de um gêmeo digital, testar conectores compatíveis com padrões internacionais e desenvolver uma prova de conceito de rastreabilidade com um cliente ou fornecedor âncora.

Outro movimento importante é organizar dados por produto e consumo energético por ordem de produção. Essas informações tendem a ganhar peso e podem se tornar um diferencial competitivo.

O Factory-X ainda está em desenvolvimento, mas a direção já está definida, a competitividade industrial dependerá cada vez mais da capacidade de compartilhar dados com confiança, velocidade e governança. Mais do que uma tecnologia, o Factory-X representa uma mudança de lógica.

Quer saber mais sobre o tema? Acesse as informações direto nos sites em alemão https://bit.ly/4dUJCvN, https://bit.ly/4vjVkr0, https://bit.ly/4afc4at.


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