Alemanha enxuga a indústria automotiva enquanto corre atrás das competências do futuro

Em meio a demissões e redução de custos, montadoras e fornecedores alemães enfrentam o desafio de desenvolver profissionais capazes de acelerar a transformação tecnológica do setor

As notícias que chegam da indústria automotiva alemã parecem, à primeira vista, contraditórias. De um lado, montadoras e fornecedores anunciam programas de redução de custos e milhares de cortes de postos de trabalho. De outro, cresce a necessidade de profissionais especializados em áreas como software, inteligência artificial, eletrônica, eletromobilidade e desenvolvimento de novas tecnologias.

Não se trata exatamente de contratar enquanto se demite. O que está acontecendo na indústria alemã é uma mudança mais profunda na composição das equipes.

Os dados divulgados pelo jornal econômico Handelsblatt em agosto mostram esse movimento. No fim do primeiro semestre de 2026, a indústria automotiva empregava cerca de 691,5 mil pessoas, 42,3 mil a menos que o mesmo período do ano passado. A queda de 5,8% foi a maior entre os grandes setores industriais do país e levou o emprego automotivo ao menor nível desde o início da série estatística, em 2005.

E essa tendência deve continuar. Em maio, a Associação Alemã da Indústria Automotiva (VDA) estimou que o setor poderá perder 225 mil empregos entre 2019 e 2035. Cerca de 100 mil já haviam desaparecido até 2025. A eletrificação ajuda a explicar parte desse processo, já que fabricar sistemas de propulsão elétrica exige menos componentes e etapas do que produzir motores a combustão.

Mas olhar apenas para o número total de vagas esconde uma parte importante da transformação. Um estudo realizado pela Prognos para a VDA, que analisou cerca de 700 ocupações da indústria automotiva, mostra que funções ligadas à metalurgia, engenharia mecânica e técnicas tradicionais de produção vêm perdendo espaço. Em sentido contrário, cresceram ocupações relacionadas à pesquisa e desenvolvimento, informática, engenharia elétrica e desenvolvimento de software. Somente os empregos de TI dentro da indústria automotiva avançaram cerca de 25% desde 2019 e 85% desde 2013.

É justamente nessa mudança de competências que aparece um dos maiores desafios da Alemanha. O estudo da PwC, divulgado em setembro de 2026, comprova que 85% dos executivos alemães do setor automotivo consideram software engineering e inteligência artificial competências muito ou extremamente importantes para o futuro dos negócios. Entre as empresas que não estão no grupo mais avançado da pesquisa, entretanto, apenas 45% afirmam já ter desenvolvido essas capacidades de maneira substancial. E 51% dos entrevistados apontam a falta de talentos como uma das principais barreiras para gerar valor.

Ou seja, a indústria pode precisar de menos pessoas em determinadas atividades, mas necessita de profissionais diferentes e com competências cada vez mais difíceis de encontrar. Isso não significa que todo engenheiro esteja hoje diante de um mercado aquecido. Pelo contrário. A revista WirtschaftsWoche mostrou recentemente que engenheiros experientes também sentem a redução das oportunidades no setor, enquanto até os jovens formados em eletrotécnica e eletromobilidade encontram dificuldades para conseguir uma primeira colocação. Os programas de redução de pessoal também atingem desenvolvimento e áreas administrativas, a diferença está na especialização.

A corrida tecnológica ficou mais urgente

A transformação da força de trabalho ocorre justamente quando a Alemanha enfrenta pressão para recuperar velocidade tecnológica diante, principalmente, da concorrência asiática.

Um exemplo está na automação industrial. Segundo dados da International Federation of Robotics, a Alemanha instalou 24,8 mil novos robôs industriais em 2025, queda de 8% em relação ao ano anterior. A indústria automobilística respondeu por 23% das novas instalações, contra 40% em 2020.

Na China, o movimento foi inverso. Por lá foram 354 mil novos robôs industriais em 2025, enquanto somente a indústria automobilística chinesa incorporou 78,9 mil unidades, um recorde.

O software também entrou no centro dessa disputa. O automóvel deixa progressivamente de ser um produto definido principalmente pela engenharia mecânica para se aproximar de uma plataforma tecnológica permanentemente atualizável. Inteligência artificial, direção assistida, conectividade, gestão de baterias, processamento de dados e atualizações remotas passam a fazer parte da competição entre fabricantes.

É por isso que alianças como a da Volkswagen com a Rivian e a Xpeng, ou projetos desenvolvidos com a Bosch, assim como as parcerias tecnológicas da Mercedes-Benz, ganharam importância. Desenvolver toda essa capacidade internamente ficou mais difícil, caro e demorado.

O desafio alemão, portanto, vai além de reduzir custos, é preciso liberar recursos do modelo industrial que está perdendo relevância e, ao mesmo tempo, concentrar conhecimento, capital e talentos nas tecnologias que vão definir a próxima geração de veículos.

Para empresas brasileiras que acompanham de perto a economia alemã, há uma mensagem importante nesse movimento. A transformação industrial não significa necessariamente expansão do número total de empregos, ela ocorre, inclusive, enquanto os postos desaparecem.

A disputa passa a ser por competências capazes de criar produtos, processos e modelos de negócio. Na Alemanha, a pergunta já não é apenas quantos profissionais a indústria automotiva continuará empregando, mas quais conhecimentos ela precisará dominar para continuar sendo uma das principais referências mundiais em mobilidade.

Quer saber mais sobre o tema? Acesse as informações direto nos sites em alemão
https://bit.ly/4hxXJJj, https://bit.ly/3VZMEcA, https://bit.ly/4AMzRum, https://bit.ly/4hWdI52.


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