Especialistas destacam o Estado como polo atrativo para investimentos alemães em um cenário global de transformação industrial e busca por previsibilidade
O Paraná avança de forma consistente em seu posicionamento internacional e se consolida como um dos estados brasileiros mais bem colocados na agenda de cooperação econômica entre Brasil e Alemanha. Em um contexto global marcado por reconfiguração das cadeias produtivas, instabilidade geopolítica, busca crescente por previsibilidade, inovação e sustentabilidade, esse posicionamento ganha relevância com a recente visita a Curitiba da embaixadora da Alemanha no Brasil, Bettina Cadenbach.
Essa foi a sua primeira agenda oficial no Estado desde que assumiu o cargo, em setembro de 2023, e teve caráter estratégico e institucional, com reuniões no Palácio Iguaçu, encontros com lideranças empresariais e diálogo com instituições representativas do setor produtivo. A embaixadora teve acesso a um panorama detalhado da economia paranaense, que combina crescimento acima da média nacional, base industrial diversificada, agronegócio altamente tecnológico, infraestrutura logística robusta e uma matriz energética predominantemente limpa.
Essa leitura estratégica foi revelada pelo cônsul honorário da Alemanha em Curitiba, Andreas Hoffrichter, que acompanhou a embaixadora na capital paranaense e analisa há décadas a evolução das relações econômicas entre os dois países. Segundo ele, o atual momento internacional representa uma inflexão importante na lógica dos investimentos globais. “Vivemos um período de grandes incertezas geopolíticas e comerciais, e isso faz com que empresas alemãs procurem mercados que ofereçam estabilidade, previsibilidade e regras claras”, afirma.
Hoffrichter destaca que o interesse da Alemanha pelo Brasil voltou a crescer, e o Paraná se apresenta como um dos estados mais preparados para receber esse movimento. “O Paraná reúne uma combinação sólida de indústria diversificada, agronegócio altamente competitivo, boa infraestrutura logística e uma localização estratégica dentro do Mercosul. Para muitas empresas alemãs, isso significa a possibilidade de atender não apenas o mercado brasileiro, mas toda a América do Sul a partir de uma base confiável”, avalia.
O Acordo União Europeia–Mercosul assume papel central nesse reposicionamento, com impactos indo além da redução de tarifas.
A votação no Parlamento Europeu foi prevista para dezembro e seguida da assinatura oficial em Brasília pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mas acabou sendo postergada para o início de 2026. “Em um momento em que o comércio internacional baseado em regras está sendo colocado à prova, a assinatura do acordo reduz riscos para as empresas e cria condições favoráveis para investimentos de longo prazo”, enfatiza Hoffrichter.

A representante da Germany Trade and Invest (GTAI), Gloria Rose, complementa a análise e afirma: “O Brasil e o estado do Paraná vêm ganhando importância e é cada vez mais reconhecido pelas empresas alemãs como um mercado estratégico e parceiro econômico relevante. Nosso papel é fornecer informações qualificadas e análises profundas sobre mercados, setores e regiões, para que as empresas alemãs possam tomar decisões bem fundamentadas”, explica. A GTAI é a agência de fomento ao comércio exterior e aos investimentos vinculada ao Ministério da Economia da Alemanha e atua como um centro de inteligência econômica voltado a apoiar decisões empresariais. Além disso, apoia estrategicamente investidores brasileiros com informações de mercado, orientação jurídica e suporte prático para investir na Alemanha.
Para isso, a agência acompanha sistematicamente setores como indústria automotiva, química, tecnologia, energia, infraestrutura e agronegócio, avaliando tendências globais e particularidades locais. Nesse mapeamento, o Paraná aparece de forma recorrente como um estado com vantagens competitivas claras. “É uma região que combina escala econômica com diversidade produtiva e um ambiente cada vez mais alinhado às demandas globais”, acrescenta.
Para ela, a importância da informação como fator decisório é um forte diferencial. “Quanto mais estruturada e transparente for a informação, maior será a capacidade da empresa de reduzir incertezas, antecipar riscos e tomar decisões consistentes. Países e estados que conseguem se apresentar de forma organizada e com uma visão clara de futuro tendem a ganhar a confiança de investidores”, afirma.
Essa convergência entre diplomacia, inteligência econômica e ambiente produtivo se reflete em uma agenda internacional intensa entre Brasil e Alemanha. Em 24 de março de 2026, Brasília sediará o 2º Fórum de Investimento Brasil–União Europeia, organizado pela União Europeia em parceria com a ApexBrasil e o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), em um momento decisivo para a formalização do Acordo União Europeia–Mercosul.
A assinatura significa um momento simbólico e decisivo. “O acordo mostra que, apesar das tensões globais, União Europeia e Mercosul continuam apostando no multilateralismo e em relações econômicas baseadas em regras”, afirma o cônsul, enfatizando que a cooperação cria um ambiente muito mais previsível para empresas que pensam em investir e produzir.
Outro eixo central dessa agenda é a Hannover Messe, maior feira de tecnologia industrial do mundo, que acontece entre 20 e 24 de abril do próximo ano, na Alemanha. Em 2026, o Brasil será o país parceiro do evento, com uma delegação estimada entre 130 e 150 empresas. “Ser país parceiro da Hannover Messe dá ao Brasil, e, por consequência, ao Paraná uma visibilidade extraordinária”, destaca Hoffrichter. Essa será uma oportunidade concreta de mostrar competências industriais, tecnológicas e de inovação em um dos palcos mais relevantes do mundo.
Do ponto de vista tecnológico, a cooperação com a Alemanha traz ganhos diretos para a economia paranaense, afinal o intercâmbio de tecnologias aumenta produtividade e competitividade, o que é fundamental para setores fortes do Paraná. “A Alemanha tem muita experiência em automação, eficiência energética e uso de inteligência artificial aplicada à indústria”, afirma o cônsul.
Gloria complementa que áreas como agronegócio e energia também concentram grande potencial de cooperação. “Tecnologias aplicadas à agricultura de precisão, ao processamento de alimentos e à gestão eficiente de energia são extremamente relevantes para o Brasil”, observa. Ela diz que o Paraná, com sua matriz energética limpa e agronegócio estruturado, dialoga muito bem com essas soluções.
A expectativa, então, é de continuidade e aprofundamento do diálogo econômico entre Brasil e Alemanha. “O interesse existe, os dados mostram isso e as oportunidades são reais”, resume Gloria. Para Hoffrichter, o desafio agora é transformar esse interesse em projetos concretos. “O Paraná tem todos os elementos para se posicionar como um parceiro estratégico da Alemanha. O próximo passo é concretizar essa aproximação em negócios e parcerias de longo prazo”, finaliza.