Hidrogênio verde aproxima ainda mais Paraná e Alemanha

Mesmo com desafios de custos e projetos adiados, a Alemanha avança na construção de infraestrutura de hidrogênio, ao mesmo tempo, o Paraná ganha novo centro de pesquisa na área

Nos últimos anos, o hidrogênio verde foi apresentado como uma das grandes promessas da transição energética. No entanto, em 2026, especialmente na Alemanha, a conversa mudou.
A pergunta já não é apenas “o hidrogênio verde funciona?”, visto que a tecnologia já é conhecida. O desafio agora é produzir em escala, transportar, reduzir custos e encontrar compradores dispostos a fechar contratos de longo prazo.
A Alemanha sabe que dificilmente conseguirá produzir internamente todo o hidrogênio de que precisará nas próximas décadas. O governo alemão estima uma demanda entre 95 e 130 TWh de hidrogênio e derivados já em 2030. Desse total, aproximadamente 50% a 70% deverão vir de importações.
É justamente essa dependência externa que transforma países com grande disponibilidade de energia renovável, como o Brasil, em potenciais parceiros estratégicos. E, dentro do Brasil, o Paraná começa a construir suas próprias credenciais. Mas vamos dar um passo atrás e entender melhor como essa oportunidade impacta o estado.
Primeiro: o que é hidrogênio verde?
Não se trata propriamente de uma fonte primária de energia como o sol ou o vento. O hidrogênio funciona principalmente como um vetor energético que permite armazenar energia e utilizá-la posteriormente em processos industriais, combustíveis e outras aplicações.
O chamado hidrogênio verde é produzido principalmente por eletrólise da água, ou seja, a eletricidade é utilizada para separar a molécula de água em hidrogênio e oxigênio. Quando essa eletricidade vem de fontes renováveis, como energia solar ou eólica, obtém-se o chamado hidrogênio renovável ou, na terminologia mais popular, hidrogênio verde.
Isso explica por que países com grande potencial renovável despertam interesse internacional. Mas também ajuda a entender que, para produzir hidrogênio verde, é preciso muita eletricidade renovável, o que, atualmente, ainda custa caro.
Talvez nenhuma expressão defina melhor o momento alemão do que a utilizada pelo próprio jornal econômico Handelsblatt para seu Wasserstoff-Gipfel de 2026: “Realitätscheck”, ou teste de realidade.
Depois de anos de estratégias, programas públicos e anúncios de grandes projetos, a discussão alemã está concentrada em infraestrutura, aplicações industriais e financiamento.
Em janeiro, o jornal anunciou que a carteira de projetos planejados de produção de hidrogênio verde na Alemanha havia diminuído em aproximadamente 3 GW entre agosto de 2024 e dezembro de 2025.
Em agosto, outro sinal importante veio da indústria, com a interrupção da thyssenkrupp nucera em seguir com os planos para uma fábrica de produção em série de componentes para eletrólise de alta temperatura em Türingen, no leste da Alemanha. Segundo a empresa, o mercado de hidrogênio está avançando mais lentamente do que o esperado e diversos projetos vêm sofrendo atrasos.
No mesmo mês, outro grande projeto, o HyScale100, planejado para uma refinaria em Schleswig-Holstein e que poderia chegar a 2,1 GW de capacidade de eletrólise, foi encerrado. Mesmo assim, o cenário não significa que a Alemanha tenha desistido do hidrogênio; pelo contrário, o setor entrou em uma fase pragmática.
Enquanto alguns projetos param, uma rede de 9 mil quilômetros começa a aparecer. Talvez o melhor exemplo dessa aparente contradição esteja debaixo da terra.
A Alemanha está construindo o seu Wasserstoff-Kernnetz, a rede central de transporte de hidrogênio do país. O projeto aprovado prevê aproximadamente 9 mil quilômetros de tubulações, combinando novos dutos com a conversão de parte da infraestrutura atualmente utilizada para gás natural. Mais de 500 quilômetros já estão em operação desde 2025.
Em março desse ano, os produtores, grandes consumidores, fornecedores e comercializadores foram autorizados a reservar capacidade de transporte nessa rede com vários anos de antecedência. Há, portanto, uma infraestrutura sendo preparada para um mercado que ainda está em formação.
Um exemplo concreto apareceu na segunda quinzena de agosto com o início da construção de uma nova tubulação de 17 quilômetros ligando a França à siderúrgica Dillinger Hütte, em Saarland. O projeto tem investimento estimado em € 70 milhões e deverá permitir que a siderúrgica utilize hidrogênio na produção de aço a partir de 2029.
Outro marco veio de Niedersachsen, ou em português, Baixa Saxônia. Em junho, EWE e Salzgitter AG anunciaram um dos primeiros contratos de longo prazo entre produtor e consumidor industrial de hidrogênio verde na Alemanha. Esse é um exemplo de contrato que o mercado procura, numa cadeia de alguém produz, alguém compra e uma infraestrutura conecta os dois.

Um quebra-cabeça onde a peça faltando é o Paraná
Mas existe uma peça que a Alemanha não consegue produzir sozinha, a energia renovável abundante e barata. E eles sabem disso! A estratégia alemã reconhece que uma parcela significativa da demanda futura terá de ser atendida pelo exterior. Para 2030, a expectativa oficial é que 50% a 70% do hidrogênio e de seus derivados consumidos pelo país sejam importados.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas alemã e passa a interessar ao Brasil. O país combina disponibilidade de recursos renováveis, experiência em bioenergia, grande sistema elétrico renovável e capacidade de expansão de geração solar e eólica. Isso abre a possibilidade de produzir não apenas hidrogênio, mas também seus derivados, como amônia, metanol e combustíveis sintéticos.
Para a Alemanha, esses derivados são particularmente interessantes porque transportar hidrogênio puro por milhares de quilômetros não é uma tarefa simples. Transformá-lo em outros produtos pode facilitar transporte, armazenamento e utilização industrial.
Mas o Brasil não precisa ocupar apenas o papel de exportador. E se o maior negócio não for simplesmente mandar hidrogênio para a Alemanha? Esse talvez seja o ponto mais importante para empresas brasileiras. O desenvolvimento da economia do hidrogênio cria uma cadeia industrial muito maior do que a produção da molécula.
Ela envolve eletrolisadores, compressores, sistemas de armazenamento, tubulações, válvulas, sensores, materiais especiais, automação, software, engenharia, certificação, segurança, logística e equipamentos para utilização do hidrogênio. A própria Alemanha está investindo fortemente nessas competências.
Em julho de 2026, por exemplo, entrou em funcionamento em Brandenburg um laboratório dedicado a testar tubulações, válvulas, vedações e outros componentes em condições reais de transporte de hidrogênio. Uma das questões estudadas é justamente como adaptar a infraestrutura existente de gás natural para a nova molécula.
Isso abre outra perspectiva para a cooperação Brasil-Alemanha: produzir hidrogênio no Brasil utilizando tecnologia alemã, desenvolver soluções conjuntamente e inserir empresas brasileiras na cadeia internacional de equipamentos e serviços.
Paraná acaba de conquistar um centro de competência em hidrogênio
Em junho de 2026, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação anunciou que a Universidade Federal do Paraná (UFPR) será sede do novo Centro de Competência em Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono. O investimento federal previsto é de R$ 60 milhões.
A proposta é reunir universidades, institutos de pesquisa, empresas e laboratórios para desenvolver tecnologias relacionadas à produção e utilização de hidrogênio de baixa emissão.
Isso coloca o Paraná em uma posição interessante justamente quando Alemanha e Europa procuram transformar a economia do hidrogênio de projetos experimentais em aplicações industriais.
Para empresas paranaenses, a oportunidade pode estar menos em imaginar imediatamente grandes plantas de exportação e mais em participar da construção desse ecossistema.
O Paraná pode ter uma vantagem diferente da alemã. A Alemanha pensa muito em hidrogênio associado à energia eólica, solar, indústria química e siderurgia. Já o estado possui uma característica mais voltada à agroindústria, extremamente forte e com grande disponibilidade de resíduos orgânicos. Isso permite o desenvolvimento de modelos nos quais biogás, biometano, hidrogênio renovável e captura de carbono biogênico trabalhem de maneira integrada.
O Oeste do Paraná, por exemplo, já é um laboratório natural para projetos de biogás e biometano associados à produção agropecuária. Essa experiência cria uma ponte interessante para combustíveis sintéticos e outros derivados do hidrogênio.
Para Paraná e Alemanha, 2026 se consolida como um bom momento para construir novas sinergias.
Quer saber mais sobre o tema? Acesse as informações direto nos sites em alemão
https://shre.ink/G5jb, https://shre.ink/G5j8.


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